
A maior posição da minha carteira nasceu de uma das menores quantias investidas.
A NVIDIA representa apenas 0,59% do capital aplicado nas posições que mantenho abertas, mas vale hoje 6,79% da carteira.
Não chegou a este tamanho por eu ter colocado lá muito dinheiro. A valorização fez a maior parte do trabalho.
Ao fazer as contas, esperava descobrir que quase todo o ganho vinha dela.
Descobri outra coisa.
Leitura macro
Aconteceu. Na quarta-feira a Fed subiu os juros em 25 pontos-base, para o intervalo de 3,75% a 4%. É a primeira subida em três anos.
Vinha a ser escrito aqui há duas edições. Há quinze dias a probabilidade implícita era de 55%, depois 65%, e na véspera do número da inflação já ia em 86,7%. Não houve surpresa nenhuma — e é precisamente isso que interessa reter.
Kevin Warsh foi direto na conferência: a inflação continua demasiado alta e o compromisso é com um regresso "mais atempado" aos 2%. Não é linguagem de quem fez um ajuste técnico e volta a dormir.
O mercado obrigacionista levou o recado. Os dez anos americanos fecharam a semana exatamente nos 5,00%, mais 5,3 pontos-base. Os dois anos nos 4,756%, máximo de 52 semanas. O petróleo aguenta-se acima dos 95 dólares.
E as ações? Praticamente nada. O S&P 500 fechou sexta-feira nos 7.650,50, e na sexta-feira anterior estava nos 7.656,98. Uma semana com a primeira subida de juros em três anos, e o índice acabou onde começou.
Guarda esta como uma das lições mais baratas que o mercado dá: o evento que toda a gente consegue antecipar já não é um evento. Estava no preço antes de acontecer. O que mexe carteiras não é a notícia esperada — é a que ninguém pôs na folha.
Eu não fiz nada com isto. Não mudei uma posição por causa de quarta-feira. Registo, porque a leitura macro é o pano de fundo contra o qual o modelo é lido — não o gatilho que o dispara.
O movimento do modelo
Atualizei o modelo a 18 de setembro. A carteira reúne 26 instrumentos: 21 ações e cinco ETF. A avaliação de empresas e a análise dos ETF exigem critérios diferentes: num fundo, interessam também a composição, os custos e a sobreposição com outras posições.
A Microsoft lidera a tabela, à frente da TSMC e da NVIDIA.
A mesma folha apresenta uma variação de aproximadamente −4,7% para a Microsoft nos últimos doze meses. É um contraste interessante: a melhor pontuação atual não pertence à ação que mais subiu.
Mas pontuação não é promessa. O modelo ordena os ativos segundo critérios definidos; não demonstra que o mercado está errado nem garante uma recuperação.
É precisamente quando a minha leitura e o preço divergem que preciso de mais disciplina para rever os pressupostos.
Também preciso de distinguir desempenho dos ativos e desempenho da carteira. A média simples das variações a três meses na tabela está em −2,6%. É um sinal de fraqueza no conjunto acompanhado, mas não corresponde à rentabilidade efetiva do portefólio, que depende dos pesos e das operações realizadas.
Há ainda dois pontos concretos a acompanhar: a liquidez apresentada no retrato semanal está em 0,08%, abaixo do objetivo de 1% a 1,5%, e as posições diretas em semicondutores somam cerca de 22%. A exposição através dos ETF acresce a esse valor.
Deixar uma posição crescer não me dispensa de decidir quanto risco estou disposto a carregar.Por dentro da carteira: a Rolls-Royce
Começa hoje um bloco que fica: uma empresa da carteira por edição. O que faz, como ganha dinheiro, onde a história se pode partir.
Começo pela que multiplicou por quase três o dinheiro que lá meti.
A Rolls-Royce vende motores. Mas não é aí que está o negócio.
Através do TotalCare, cobra em função das horas que o motor passa a voar e assume a responsabilidade de o manter em condições. Entrega o motor e continua a receber durante anos.
Para a companhia aérea, isto troca uma fatura imprevisível por um custo por hora de voo. Para a Rolls-Royce, cria um incentivo que eu acho elegante: melhorar a fiabilidade poupa dinheiro aos dois lados ao mesmo tempo.
E é também aí que a tese se pode partir. Se as reparações saírem mais frequentes ou mais caras do que o previsto, a conta é do fabricante, não do cliente. Receita recorrente com custos descontrolados é um prejuízo com calendário.
Por isso é que, nesta empresa, uma oficina pode valer tanto como uma encomenda. No semestre, a novidade foi a expansão da rede de manutenção — um centro novo da Turkish Technic em Istambul, a abrir no final de 2027. Ainda tem de ser construído, cheio e rentabilizado.

Receita a subir, margem a subir, caixa a acompanhar. É a sequência que interessa: o crescimento chega à margem, a margem chega à caixa. São medidas subjacentes, ajustadas pela própria empresa, e é um semestre só.
Não vendi nenhuma parcela desta posição.
E o modelo? Não a está a premiar. A Rolls-Royce liderava a tabela em agosto e aparece no último scorecard em oitavo, com uma queda de quase treze pontos. Escrevo sobre ela porque o negócio me interessa, não porque o score esteja a subir.
Gostar do negócio e comprar a ação são duas decisões, e só uma delas depende do preço.
Um conceito: deixar correr
"Corta as perdas, deixa correr os ganhos" é o conselho mais repetido que existe, e é o mais difícil de cumprir, porque vender um vencedor dá uma sensação imediata de competência. Fechas a posição, vês o lucro realizado, sentes que fizeste alguma coisa.
O que não vês é o que ficou por acontecer.
A NVIDIA multiplicou por vinte o dinheiro que lá pus — vinte vezes e meia, para ser exato. A Tesla, que me dá tanta dor de cabeça, multiplicou por quase seis. A Alphabet por três e um terço. A Rolls-Royce por quase três. Nenhuma dessas posições é grande por eu ter acertado no tamanho. São grandes porque sobreviveram ao impulso de as fechar num dia qualquer em que estavam a subir 40%.
Até aqui, é o conselho de sempre.
Agora a parte que eu não esperava. Fui ver quanto é que cada posição contribuiu para o ganho não realizado da carteira — que é hoje cerca de 44% do valor total. Ia a contar que a NVIDIA fosse quase tudo.
É 15%.
Um sétimo. Uma posição que rendeu vinte vezes o dinheiro explica um sétimo do ganho acumulado da carteira inteira. Para chegar a metade do ganho são precisas sete posições. Para chegar a 80%, são precisas quinze.
Isto muda o conselho, e muda para melhor.
A versão popular de "deixar correr os ganhos" é uma história sobre acertar num monstro: uma NVIDIA, uma Amazon dos anos noventa, e o resto é decoração. Essa história é sedutora porque transforma investir numa caçada — e faz de quem não caçou nada um falhado.
Os meus números contam outra coisa. Não houve caçada. Houve quinze posições medianamente boas que ficaram lá durante anos. A Alphabet contribuiu praticamente o mesmo que a Micron. O JPMorgan contribuiu mais do que a Meta. Até o VOO e o QQQ — dois ETF que não fazem nada, não têm score e não pedem opinião a ninguém — contribuíram, cada um, mais do que a TSMC, que é a posição em que mais dinheiro meu entrou.
A conclusão prática não é "encontra a próxima NVIDIA". É quase o contrário: não precisas de a encontrar. Precisas de uma carteira suficientemente larga para que alguma coisa lá dentro corra bem, e de paciência para não interromper as que estão a correr.
E, já agora, um aviso sobre a mesma regra, para não pensares que eu a levo mais longe do que ela vai. Deixar correr não é a mesma coisa que não decidir nunca. A Tesla também correu — multiplicou por seis — e é hoje o pior nome do meu modelo, com folga, há semanas. Uma posição que sobe não fica imune a uma tese que se partiu. A regra é não vender por ela ter subido; não é não vender nunca.
Serve para ordenar, não para prever.
O gráfico

Cada ponto é uma posição. No eixo horizontal, quanto do meu dinheiro lá entrou. No vertical, quanto vale hoje. A linha a tracejado é onde as duas coisas seriam iguais.
Tudo o que está acima da linha cresceu para além do que eu lá pus. Tudo o que está abaixo vale hoje menos do que o seu peso original — não necessariamente por ter caído, mas por ter crescido menos do que o resto.
A NVIDIA está sozinha no canto de cima. A TSMC está do outro lado: 8,56% do dinheiro investido, 5,91% da carteira. É a posição em que mais acreditei com a carteira na mão, e está a construir-se devagar, como as posições de convicção quase sempre se constroem.
As duas estão certas. São relógios diferentes.
A imagem do topo mostra o resto da história: a curva de onde veio o ganho, posição a posição. Repara em como ela é menos inclinada do que a intuição diz.
Uma pergunta, e leio todas as respostas. Já vendeste um vencedor e te arrependeste? Não me interessa o nome da ação — interessa-me o que te fez carregar no botão nesse dia. Responde a este email e conta-me. Se houver respostas que valham a pena, trago-as para a próxima edição, sem nomes.
Os números todos, posição a posição, estão no scorecard.
Esta newsletter é conteúdo educativo e metodológico. Não é aconselhamento financeiro, nem uma recomendação de compra ou de venda de qualquer instrumento. Escrevo sobre a minha própria carteira e sobre o modelo que uso para a ordenar, e tenho posições em praticamente todos os nomes mencionados. Os scores são o resultado de um processo quantitativo com regras fixas, aplicado a dados públicos: podem estar errados, os dados podem estar errados, e a metodologia pode mudar. Rendibilidades passadas não garantem rendibilidades futuras. Investir envolve risco de perda de capital. Toma as tuas próprias decisões, ou fala com alguém habilitado para as tomar contigo.