Na carta passada escrevi, antes de a TSMC apresentar as contas, o que faria do trimestre uma boa notícia: a margem bruta dentro do intervalo de 65% a 67% que a empresa tinha previsto, com as vendas acima do previsto. E escrevi o que me faria rever a tese: margens abaixo do intervalo sem explicação, ou uma previsão para o fim do ano a mostrar a procura a abrandar.

Na quinta-feira, a TSMC apresentou as contas. Margem bruta de 66,4%. Vendas acima do topo da própria previsão. Lucro 69% acima do de há um ano. E uma previsão para o quarto trimestre ainda mais alta.

Na mesma semana, a ação caiu 8,9%.

As duas coisas são verdade ao mesmo tempo. Esta carta é sobre a distância entre elas — e sobre porque é que escrevo os testes antes de conhecer os resultados.

Leitura macro

A semana trouxe duas notícias que puxaram em sentidos diferentes.

A primeira foi a inflação americana de setembro: 3,7% num ano, empurrada pela energia — a gasolina está 34% mais cara do que há doze meses. Sem energia e alimentação, a inflação ficou em 2,6%.

A segunda foi uma dúvida sobre o financiamento da inteligência artificial. Na quarta-feira, as ações da CoreWeave — uma empresa que aluga capacidade de computação para IA e paga os centros de dados com dívida — caíram cerca de 16%, e as suas obrigações chegaram a render perto de 15% ao ano. A pergunta do mercado foi simples: quem paga a conta se o investimento demorar a dar retorno?

Repara num pormenor. Os juros da dívida americana a 10 anos até desceram, de 5,24% para 5,09%. Não foi o custo do dinheiro que mexeu os preços. Foi a confiança.

O S&P 500 perdeu 1,9% na semana e o Nasdaq 4,5%. O Dow Jones subiu 0,7%.

O movimento do modelo

A carteira perdeu 5,2% na semana (valor da conta na eToro, em dólares, de 9 para 16 de outubro). O S&P 500 perdeu 1,9%.

A explicação cabe numa frase: as oito empresas da cadeia da inteligência artificial — os semicondutores e a infraestrutura dos centros de dados — caíram juntas, entre 6,6% e 16,3%, e explicam mais de quatro quintos da queda. Do outro lado, sete posições subiram: a Leonardo, a Iberdrola, a Apple, a JPMorgan, a GE, a Poste Italiane e o fundo de ações espanholas.

No ano, até quinta-feira, a carteira soma +11,1%; o S&P 500 somava +13,1%, sem contar dividendos. Na carta passada eu estava à frente. A Micron, a Comfort Systems, a GE Vernova e a TSMC são as quatro ações da carteira que mais subiram este ano — e esta semana estiveram entre as que mais desceram. É o outro lado da conversa que tivemos sobre tamanho: o que sobe junto também desce junto.

Onde mexi: comprei um pouco mais de Microsoft, Meta e Amazon, e reduzi ligeiramente a GE, a Vertiv e a Celestica. A liquidez ficou em 0,35%, abaixo do intervalo de 1% a 1,5% onde quero estar.

No modelo, a Micron, a TSMC, a Apple e a Microsoft continuam as quatro primeiras, e a Alphabet entrou no grupo da frente. Mas a folha piorou em largura: 16 das 21 ações perderam pontos no score agregado, e a Celestica passou do grupo da frente para a metade de baixo da tabela numa só semana. Um bom score não protege uma ação de uma semana má.

Por dentro da carteira: a JPMorgan

Na carta passada, a JPMorgan era o outro teste da semana: como estão os clientes, os depósitos e o crédito.

A JPMorgan é o maior banco dos Estados Unidos. Ganha dinheiro de duas formas: com a receita líquida de juros — a diferença entre o que recebe nos empréstimos e investimentos e o que paga pelos depósitos e outro financiamento — e com comissões de cartões, banca de investimento, gestão de patrimónios e negociação nos mercados. Divide-se em três grandes negócios: o banco de particulares e pequenas empresas, o Chase; o banco de empresas e de investimento; e a gestão de ativos e de patrimónios.

No terceiro trimestre lucrou 15,3 mil milhões de dólares, mais 6% do que há um ano. Os depósitos chegaram a 2,78 biliões de dólares, mais 9%, e os empréstimos médios cresceram 10%. O banco de empresas e de investimento foi o maior contribuinte, com 8,2 mil milhões de lucro.

Os dois números que prometi olhar contam a mesma história. A receita líquida de juros, sem a atividade de mercados, subiu 6%. E o crédito portou-se bem: as perdas efetivas com empréstimos ficaram em 2,2 mil milhões, menos 389 milhões do que há um ano, e as provisões ficaram abaixo das do mesmo trimestre de 2025.

A curiosidade: um banco deste tamanho também decide quanto devolve aos acionistas. No trimestre, a JPMorgan pagou 4,4 mil milhões em dividendos, mas recomprou apenas 664 milhões em ações. Jamie Dimon, o presidente executivo, explica a escolha: acredita que consegue aplicar esse capital, ao longo do tempo, «com retornos muito atrativos». Guardar capital também é uma decisão de investimento.

A métrica que vou acompanhar: a taxa de perdas no cartão de crédito, que ficou em 2,91% no trimestre. É um dos primeiros sítios onde aparecem as dificuldades das famílias.

O que me faria rever a tese: perdas no cartão a subir de forma consistente durante vários trimestres, ou a receita líquida de juros a cair enquanto os depósitos ficam mais caros.

A JPMorgan vale 4,31% da minha carteira e subiu 2% numa semana em que a carteira caiu. No modelo, continua na metade de baixo da tabela, mas subiu nesta leitura.

Um conceito: escrever o teste antes do resultado

Há uma armadilha em que é fácil cair: julgar uma empresa pelo que a ação fez.

Se a TSMC tivesse subido 9% esta semana, as mesmas contas pareceriam excelentes. Como caiu 9%, há quem procure nelas um defeito. As contas são as mesmas. O que mudou foi o preço.

A defesa que uso é simples: escrever o teste antes de conhecer o resultado. Para cada empresa em foco, deixo três coisas escritas — a métrica que vou acompanhar, o que seria uma boa notícia e o que me faria rever a tese. Quando os números chegam, comparo-os com o que escrevi, não com o que o mercado fez nesse dia.

O preço diz-me o que o mercado pensa hoje. O teste diz-me se a empresa fez o que eu esperava dela. São perguntas diferentes, e misturá-las é o caminho mais curto para vender uma boa empresa no pior momento.

Uma ressalva: escrever o teste não me protege de estar errado. Protege-me de mudar de ideias pelas razões erradas.

O gráfico

Três barras: a receita da TSMC no terceiro trimestre subiu 41% e o lucro 69% face a um ano antes; a ação caiu 8,9% na semana de 9 a 16 de outubro.

TSMC no 3.º trimestre de 2026, face ao mesmo trimestre de 2025: receita +41,2% em dólares e lucro +68,7%. A ação (ADR) caiu 8,9% na semana de 9 a 16 de outubro.

À esquerda, o que a TSMC fez no trimestre face a um ano antes. À direita, o que a ação fez na semana. A distância entre as barras é o tema desta carta.

Barras horizontais com a variação de preço das 26 posições na semana: as oito da cadeia da IA caíram entre 6,6% e 16,3%; sete subiram, com a Leonardo à frente, mais 7,5%.

Variação do preço das 26 posições da carteira de 9 a 16 de outubro, em moeda local. A azul, as oito da cadeia da IA, que caíram entre 6,6% e 16,3%. Sete posições subiram.

As oito empresas da cadeia da IA caíram juntas. Sete posições subiram. É a semana que melhor explica porque olho para o peso do grupo, e não só para o de cada empresa.

Os scores da leitura de 3 de outubro, posição a posição, estão no scorecard de outubro.

O que vou acompanhar esta semana

  • Terça, 20/10, 12h30 (Lisboa) — GE Aerospace. Encomendas e serviços de motores, e um sinal para o resto do aeroespacial da carteira.

  • Quarta, 21/10, 08h30 — Iberdrola. Resultados dos primeiros nove meses e investimento nas redes elétricas.

  • Quarta, 21/10, 21h30 — Meta. Se a publicidade continua a pagar o investimento em inteligência artificial.

  • Quarta, 21/10, 22h30 — Tesla. Margens, depois de 486 mil carros entregues no trimestre.

Uma pergunta, e leio todas as respostas. Escreves o teste das tuas empresas antes de elas apresentarem resultados? Se sim, conta-me qual — e o que te faria mudar de ideias. Responde a este email. Se houver respostas que valham a pena, trago-as à próxima edição, sem nomes.

Até à próxima carta,

Santiago

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Esta newsletter é conteúdo educativo e metodológico. Não é aconselhamento financeiro, nem uma recomendação de compra ou de venda de qualquer instrumento. Escrevo sobre a minha própria carteira e sobre o modelo que uso para a ordenar, e tenho posições em praticamente todos os nomes mencionados. As prioridades descritas nesta carta não anunciam operações executadas. Os scores são o resultado de um processo quantitativo com regras fixas, aplicado a dados públicos: podem estar errados, os dados podem estar errados, e a metodologia pode mudar. Rendibilidades passadas não garantem rendibilidades futuras. Investir envolve risco de perda de capital. Toma as tuas próprias decisões, ou fala com alguém habilitado para as tomar contigo.

Fontes e dados: carteira e pesos — eToro, em dólares, consulta de 17/10/2026 (fecho de 16/10); rentabilidade no ano — perfil eToro até 15/10/2026; scores — modelo Santiago1000, folha de 17/10/2026; TSMC, resultados do 3.º trimestre; TSMC, relatório de gestão; JPMorgan, resultados do 3.º trimestre; inflação de setembro (BLS); taxas do Tesouro americano; índices a 16/10 (AP); CoreWeave a 14/10 (investingLive); calendário: GE Aerospace, Iberdrola, Meta, Tesla.