A Celestica subiu vinte pontos no meu modelo esta semana. Passou de 52,7 para 72,6 e entrou no grupo de alta convicção — o maior salto que o livro já deu numa semana.

Tenho 1,04% de saldo disponível na carteira que publico aqui.

Um por cento. Para reforçar a Celestica tenho de vender outra coisa.

É disto que trata a carta de hoje: da distância entre subir no ranking e ganhar espaço na carteira. São duas coisas diferentes, e é a segunda que custa dinheiro.

Leitura macro

A semana foi das obrigações, outra vez.

Os dez anos americanos chegaram aos 5,22% — o nível mais alto desde 2007. Os trinta anos foram aos 5,50%, máximo desde 2004.

Há duas edições escrevi aqui que a Fed tinha subido os juros e que as ações não se tinham mexido. Continuam a não se mexer no sentido que seria de esperar: o S&P 500 fechou sexta-feira nos 7.743,41, contra 7.650,50 na sexta-feira anterior. Mais 1,2% numa semana em que a dívida longa americana foi a máximos de quase vinte anos.

O petróleo aliviou — o WTI caiu para os 92,41 dólares, depois de terem surgido conversas entre os Estados Unidos e o Irão sobre a reabertura do estreito de Ormuz. Na semana anterior estava acima dos 95.

E o consumidor americano não está a gostar de nada disto: o índice de sentimento da Universidade de Michigan caiu para 48,1, mínimo de quatro meses.

O dinheiro está mais caro e as tecnológicas subiram na mesma. As duas coisas podem coexistir durante muito mais tempo do que parece razoável, e quem tenta arbitrar a contradição costuma sair caro.

Uma dessas subidas entrou diretamente no meu modelo: a Meta valorizou cerca de 10% na semana depois de lançar um agente de IA que agradou a Wall Street.

O movimento do modelo

Atualizei o modelo a 27 de setembro. Vinte e seis instrumentos: 21 ações pontuadas e cinco fundos, que ficam de fora por não terem contas próprias para pontuar.

A média do score subiu de 55,8 para 56,2.

Meio ponto. E é pior do que parece, porque esconde o que se passou por baixo.

Sete nomes subiram. Catorze desceram. Dois explicam a melhoria inteira: a Celestica, com mais 19,9 pontos, e a Meta, com mais 12,2. Tira estes dois e a média dos restantes dezanove é de menos 1,19 pontos.

O livro não melhorou. Dois nomes melhoraram muito e arrastaram a média atrás deles.

O topo mantém-se: a TSMC em primeiro com 82,4, à frente da Micron e da NVIDIA. O fundo também: a Tesla em 17,4, em último, com folga, há semanas.

Do lado que piorou, três posições com peso a sério: o JPMorgan perdeu 6,5 pontos, a Poste Italiane 5,9, a Rolls-Royce 4,0.

O saldo disponível está em 1,04%, contra 0,08% na leitura anterior. Houve uma acomodação da carteira durante a semana, um mini rebalanceamento sem leitura nenhuma por trás. Entra finalmente na banda de 1% a 1,5% que tenho como objetivo — e, como vais ver mais abaixo, continua a não chegar para o que o modelo sugere.

Uma nota de âmbito, que vale para tudo o que escrevo aqui: os números desta carta são os da carteira eToro que publico — a mesma que o scorecard mostra e que se pode acompanhar na plataforma. As percentagens são as que a própria eToro publica na vista de carteira.

Por dentro da carteira: a Celestica

Se o maior movimento do livro foi esta empresa, o mínimo que te devo é explicar o que ela faz.

A Celestica monta hardware para outros. É um fabricante por contrato: desenha, fabrica, integra e entrega equipamento que sai pela porta com o nome de outra empresa na caixa. Servidores, armazenamento, comutadores de rede, racks inteiros para centros de dados.

Durante trinta anos foi um negócio aborrecido e de margem fina. Depois chegou a inteligência artificial.

No segundo trimestre, a receita foi de 4,70 mil milhões de dólares, mais 62% do que no ano anterior. O segmento de centros de dados cresceu 84% e vale hoje 81% da empresa. Dentro dele, a parte de computação para IA cresceu 167%. A empresa subiu a previsão para o ano inteiro para 20,5 mil milhões, depois de já a ter subido uma vez.

E agora o número que interessa mesmo.

A margem operacional ajustada foi de 8,2%. É um recorde da empresa.

Oito por cento. Num ano em que a receita cresce sessenta e cinco.

É isto que é um fabricante por contrato. Passa por ele um rio de dinheiro e fica com um fio. O negócio não é a margem — é o volume e a rotação do capital. Funciona lindamente enquanto o volume cresce.

Onde é que a história se pode partir. Os dez maiores clientes são 83% da receita. Os três maiores são 63%. O maior, sozinho, é 32%.

Quase um terço desta empresa depende de um único cliente que ela não nomeia. Se esse cliente levar os programas para outro fornecedor, ou trouxer a montagem para dentro de casa, não há margem de 8% que absorva o embate. Não é um risco teórico: é a estrutura do negócio, e está escrita nas contas.

Há um segundo ponto que acompanho. Em agosto, a Celestica emitiu 11.129.031 ações a 310 dólares e encaixou cerca de 3,45 mil milhões — com a opção dos bancos exercida na totalidade. O dinheiro serve para investir e para financiar o crescimento. Também aumenta o número de ações por onde o lucro se reparte. Crescer com capital novo é legítimo; só não é grátis.

Por isso não olho para a receita. Olho para a margem, para a conversão em caixa e para o resultado por ação.

Vale 3,68% da minha carteira e está cerca de 40% acima do preço médio a que comprei.

Um conceito: o ranking não é a carteira

A Celestica tem a quinta melhor pontuação das minhas vinte e uma ações. É a décima primeira maior posição.

A Meta tem a sétima melhor pontuação. É a décima sétima maior posição.

Não é um erro. É a diferença entre duas perguntas que se parecem e não são a mesma: esta empresa está bem classificada? e quanto do meu dinheiro está nela?

O score responde à primeira. Não sabe nada sobre a segunda. Não conhece o preço a que comprei, não sabe quanto da carteira já está em semicondutores, não faz ideia de quanto saldo tenho disponível. Ordena empresas. Não constrói carteiras.

Quem constrói a carteira sou eu, e eu tenho restrições que o modelo não tem.

É aqui que a coisa fica prática. Para a Celestica passar de 3,68% para, digamos, 5% da carteira, faltam-me 1,32 pontos percentuais. Tenho 1,04% de saldo. Não chega — nem gastando tudo o que lá está.

Ou seja: o dinheiro tem de sair de outra posição. E os candidatos naturais são os nomes que pontuam mal e pesam bem — o JPMorgan está em décimo sexto lugar na tabela e é a sétima maior posição; a General Electric está em vigésimo e é a décima quarta.

Vender uma posição porque pontua mal é uma decisão diferente de comprar outra porque pontua bem. Eu ainda não tomei nenhuma das duas.

E é por isso que uma subida de vinte pontos, por si só, não me faz mexer um dedo. Um salto grande é uma razão para ir olhar — e foi exatamente isso que fiz esta semana. Fui olhar, e encontrei margem de 8% e um cliente que vale um terço da empresa.

Serve para ordenar, não para prever.

O gráfico

Cada ponto é uma ação. Quanto mais à direita, melhor pontua. Quanto mais acima, maior a fatia da carteira que ocupa.

Se o ranking e a carteira estivessem alinhados, os pontos formavam uma diagonal. Não formam. A Celestica e a Meta estão em baixo à direita: pontuam bem, pesam pouco. O JPMorgan está em cima à esquerda: pontua mal, pesa bem.

A NVIDIA é o único nome que está nos dois sítios ao mesmo tempo — terceira melhor pontuação, maior posição da carteira. E chegou lá sem eu ter feito nada: representa 0,33% do capital que apliquei nas posições que mantenho abertas, e vale hoje 6,52% da carteira.

E aqui está a semana inteira numa imagem: duas barras compridas de um lado, catorze curtas do outro. É assim que uma média sobe enquanto a maioria desce.

A dúvida que fica

Há uma coisa nesta leitura que me incomoda e que ainda não sei resolver.

A Celestica subiu vinte pontos. No mesmo período, as medidas de qualidade e de avaliação do negócio desceram. O que melhorou foi o preço e o que os analistas esperam dele. O negócio não.

Isto aconteceu no livro todo, não só nela: os sinais de preço melhoraram mais do que as medidas de qualidade. Uma recuperação que vem do preço e não das contas é uma recuperação que pode desfazer-se com a mesma velocidade com que apareceu.

Não sei se é ruído de duas semanas ou o princípio de alguma coisa. Sei que vou olhar para isto outra vez na próxima leitura, e que é a razão pela qual o saldo continua onde está em vez de ter sido gasto na sexta-feira.

Os números todos, posição a posição, estão no scorecard.

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Uma pergunta, e leio todas as respostas. Já tiveste dinheiro parado à espera da oportunidade certa e viste a oportunidade passar? Ou o contrário — gastaste a última bala e apareceu logo a seguir alguma coisa melhor? Responde a este email e conta-me. Se houver respostas que valham a pena, trago-as para a próxima edição, sem nomes.

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Esta newsletter é conteúdo educativo e metodológico. Não é aconselhamento financeiro, nem uma recomendação de compra ou de venda de qualquer instrumento. Escrevo sobre a minha própria carteira e sobre o modelo que uso para a ordenar, e tenho posições em praticamente todos os nomes mencionados. As prioridades descritas nesta carta não anunciam operações executadas. Os scores são o resultado de um processo quantitativo com regras fixas, aplicado a dados públicos: podem estar errados, os dados podem estar errados, e a metodologia pode mudar. Rendibilidades passadas não garantem rendibilidades futuras. Investir envolve risco de perda de capital. Toma as tuas próprias decisões, ou fala com alguém habilitado para as tomar contigo.