Leitura macro
Na edição anterior escrevi que o mercado negociava a duas velocidades — inflação a arrefecer, consumo a abrandar — e que a dúvida era qual ia dominar. Esta semana chegou uma resposta parcial, e não veio de nenhuma das duas: veio do mercado obrigacionista.
A taxa das obrigações do Tesouro americano a 30 anos tocou o nível mais alto desde 2007. A 10 anos voltou aos 4,70%. Nada disto foi feito pela Reserva Federal — a taxa diretora continua nos 3,50%-3,75% e as atas de julho, publicadas quarta-feira, foram lidas como restritivas. A ponta longa da curva não pertence ao banco central. Pertence a quem decide quanto exige para emprestar dinheiro durante trinta anos, e hoje exige mais: défices, inflação que não desaparece, e tudo o que pode correr mal em três décadas. O Tesouro tentou travá-la anunciando que mais do que duplica a recompra de dívida longa. O alívio durou um dia.
Entretanto, o consumo respondeu. A Walmart caiu 9,3%, a maior queda desde 2022, com vendas comparáveis nos EUA a subir 2,6% contra os 3,8% esperados. A seguir às vendas a retalho de julho, que caíram 0,6%, deixou de ser um dado isolado e passou a ser uma direção.
Sexta-feira trouxe alívio — S&P 500 +0,43% nos 7.674, Dow +0,98%, Russell 2000 +0,85% — mas não chegou para salvar a semana: S&P 500 -1,4%, Nasdaq -2,1%, Russell 2000 -1,6%, e o Dow na segunda semana consecutiva de perdas. Três semanas seguidas de ganhos interrompidas.
Duas datas na próxima semana pesam mais do que a soma dos comentários: a Nvidia reporta a 26 e Kevin Warsh faz o primeiro discurso como presidente da Fed em Jackson Hole, a 28.
Movimento do modelo
Recalculei o scorecard com o fecho de sexta-feira. A carteira passou a 26 posições — entrou a Credo Technology — por isso o ranking desta edição lê-se como posição relativa.
O topo mudou. A Micron passou a liderar. A Rolls-Royce, primeira na Edição #1, está agora em quarto — não porque piorou, mas porque o conjunto à frente dela melhorou mais depressa. A TSM aguentou o segundo lugar. E a Alphabet, o caso que abri na semana passada, não corrigiu: está em 23.º de 26, ainda com a melhor pontuação de qualidade de negócio de toda a carteira.
O dado que me saltou à vista foi outro, e não é sobre nenhuma ação em particular. Comparei duas ordenações que costumo ver em separado: a da tabela e a do peso de cada posição na minha carteira.
Não coincidem. A minha maior posição é 12.ª no modelo. A sétima maior é 23.ª. Os dois maiores ETF de índice que tenho pesam juntos quase 11% e ficam ambos na metade de baixo da tabela. Do outro lado, três das dez melhores pontuações pesam menos de 3% cada.
Não é um erro a corrigir esta semana, nem estou a sugerir que alguém mexa em nada. É a informação mais honesta que a tabela produziu: mostra onde o meu dinheiro e o meu método discordam — convicções antigas que ficaram grandes, ETF que estão lá por diversificação e não por score, e nomes bem pontuados que entraram tarde. Ter isto visível é a diferença entre uma carteira com método e uma carteira com histórico.
O trimestre explica parte da tensão. Onze das 26 posições estão negativas a três meses, e não é aleatório: o grupo mais castigado é o das infraestruturas de IA — Vertiv -20%, Celestica -19,3%, Broadcom -11% — exatamente o perfil de duração longa que sofre quando a ponta da curva sobe. Micron +28,7% e Rolls-Royce +24,1% foram para o lado oposto. Média das 26 a três meses: +1,5%. A doze meses: +67,8%.
Conceito: nível e direção não são a mesma coisa
Na edição passada expliquei os quatro pilares do FIR. Hoje entra a peça que faltava.
Um score é uma fotografia: diz onde uma posição está hoje face às outras 25. A direção diz para onde está a ir. As duas discordam mais do que a intuição sugere. O nível é o acumulado de anos de fundamentais; a direção é o que aconteceu desde a última medição. Confundir as duas é o erro mais comum de quem começa a usar rankings quantitativos: tratar o topo da tabela como um estado, quando é uma posição relativa que se renova a cada leitura. Foi o que aconteceu à Rolls-Royce esta semana: caiu três lugares numa semana em que nada mudou no negócio.
Há o reverso, e é honesto dizê-lo: uma única variação não é um sinal. Os fundamentais de uma empresa não mudam numa semana. O que muda numa semana é o preço — e o preço só entra num dos quatro pilares. Uma variação de curto prazo é, quase toda, a componente técnica a arrastar o score. Não é o negócio a melhorar.
O que lhe dá significado é a repetição. Três ou quatro leituras na mesma direção deixam de ser preço e começam a ser tendência fundamental — exatamente o que o pilar de maior peso do FIR foi construído para captar. Uma leitura isolada é ruído com aparência de informação.
Daí a regra que sigo, e que te proponho: não leias o movimento desta edição como um sinal. Lê-o como o segundo ponto de uma série.
O gráfico
As 26 posições ordenadas por pontuação, com os quatro pilares e a metodologia, estão na página do scorecard: abrir o scorecard
Serve para ordenar, não para prever.
Disclaimer
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